sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ontem eu vi um mito


Não, não é exagero o título. Dentre vários shows, dos mais variados estilos e formas, inclusive de artistas internacionais de renome em que já tive o prazer de presenciar, no dia 18 de novembro eu vi, de fato, um mito. E não é mero fanatismo escrevendo aqui, conheço relativamente muito pouco do trabalho de Pepeu Gomes, apesar da minha admiração já existir.

Considerado um dos melhores guitarristas do mundo pela revista Guitar World, Pepeu me mostrou (e mais cerca de 300 ou 400 pessoas) o por que de tal posto.

Logo no início da apresentação, o rock domina as duas primeiras músicas. Essa introdução já te alertava o que ainda estava por vir, uma técnica incontestável, passeando pelo braço inteiro da guitarra, usando da velocidade na hora certa, de pausas, harmônicos e efeitos de pedais de forma tão natural que arrancava urros de reverência.

Mas isso, como ele mesmo diz, qualquer gringo faz. Eles (a banda era simplesmente fenomenal) estavam apenas aquecendo nesse começo rockeiro. Aí começa a genialidade:

Um choro com guitarra distorcida toma conta do Clube do Choro. As feições das pessoas ali presentes eram de não estarem acreditando no que estavam vendo, inclusive a minha. Era inacreditável a sonoridade que se passava, os timbres tão únicos - devido, entre outros fatores, àquela guitarra feita por um luthier que desconheço, mas que com certeza é muito bom no que faz - tornavam cada nota mais intensa e mais profunda que a anterior.

Logo antes do break, Pepeu e sua trupe puxam um pout-pourri do chorinho, um tributo à música brasileira; e nessa hora o show chega ao ápice. Carregando uma guitarra baiana, o cara conduz a platéia a reviver clássicos como "Lamentos", "Carinhoso", "Noites Cariocas", "Brasileirinho". Ok, o que tão genial tem nisso? Afinal, muitos já fizeram isso, certo? Errado, mudou-se o "como".

Partindo da maneira tradicional do chorinho, em uma progressão perfeita, ele mantém a estrutura principal e transforma num rock pautado numa cozinha (baixo e bateria) de baião! Vale salientar que se eu - e talvez todos os outros guitarristas do mundo - tentasse fazer isso o resultado seria desastroso. E isso tudo sem ficar com aquele gosto horrível de muitos artistas metidos a "brazucas" demais, caindo no clichè de um Brasil amazônico e somente possuidor de zambumba e samba.

Os aplausos duraram minutos, era o mínimo que poderíamos devolver a alguém que deixou em nossas memórias um dos sentimentos mais incríveis já sentidos, sentimento esse que apenas a música de alta qualidade pode proporcionar, e que só tendo presenciado alguma vez na vida para entender o que escrevo aqui - admito ainda estar um pouco atordoado com o que me aconteceu.

Então ele volta da pausa com duas bossas e um bolero em versão semi-acústica, reafirmando a diversidade brasileira e como saber explora-la. Organiza um coro improvisado do público em "Menino do Rio" antes de voltar para a guitarra. E quando volta, mostra uma nova faceta à apresentação, tocando duas salsas tão alegres e dançantes que foi dificílimo ficar parado, sentado num cadeira. A vontade de todos era de levantar e correr, dançar...tamanha sinceridade que estava sendo passada naqueles momentos.

O show termina com um rock funkeado, e uma sensação de "quero mais" eterno.

Não é ufanismo dizer que esse sujeito está entre os melhores guitarristas da história. O grande diferencial se encontra na versatilidade do repertório e da sabedoria de como usar o virtuosismo no momento certo e quando deixar uma nota soar, qualidades quase que esquecidas na maioria dos grandes nomes usuais.

Viva o rock! Viva o chorinho! Viva o Brasil! Viva o nosso mito: Pepeu Gomes!

Um comentário:

  1. Ah, vc tem que ouvir outro cara: Robertinho de Recife. Sem zoação, o cara é bom.

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