O universo das artes em geral é, normalmente, conduzido por uma certa ideologia - barata ou não - e algumas características comuns aos adeptos do movimento que se evidencia na época de cada ser. A união de vários artistas com o mesmo intuito, sendo essa organização voluntária ou não, dá força ao que chamamos de cena. Repare, contudo, que esse objetivo não significa que a forma de abordagem será idêntica, no máximo semelhante (para bons exemplos, obviamente).
Tudo começa com a inquietação por parte de algumas pessoas de querer mudar o que estava em vigor, com ascensão do novo. A talvez primeira grande ruptura tenha ocorrido com Elvis Presley nos anos 50, quando a segregação racial americana se mostrava até nas músicas. Aí me chega um branquelo, com voz de negro, cantando uma mistura de country com o jazz e blues, sem contar as danças super provocantes para o terror dos pais de garotas. E com ele vem uma lista enorme de gente botando os paradigmas de até então abaixo. Trabalho esse que depois os Beatles e os Stones fariam no Reino Unido um pouco mais tarde.
Nesse exemplo a ideologia nem era o forte, apenas o fato de querer se divertir com o que é bom, independente de quem faça ou como. Parece coisa de adolescente revoltado com o mundo, mas foi o início do fim das barreiras inter-sociais - não que ela tenha se extinguido.
No Brasil, também temos bons exemplos, citarei um no qual me identifico mais: o Rock Brasil dos anos 80. Não são bandas com os estilos tão parecidos assim, mas que, apesar de vez ou outra caírem no lirismo, tinham bastante presente nas letras a crítica socio-política - reflexo do fim da ditadura militar. Acontece um pouco depois em Seatle o surgimento do movimento grunge, que tinham muito mais a vontade de resgatar o garage rock e uma certa melancolia do que semelhança sonora entre seus expoentes.
Onde quero chegar com esse todo blábláblá aqui é: hoje em dia, principalmente no Brasil, a falta de uma organização - ou até mesmo companherismo entre as bandas - faz com que o sertanejo continue sendo best seller desde o fim dos anos 80 lá com o Chitãozinho & Xororó, e o axé continue arrastando multidões desde meados dos 90; fatos esses fenomenais, "nunca na história desse mundo contemporâneo" um estilo ficou tanto tempo no topo.
Com toda essa pluralidade de sonoridades, ninguém consegue realmente seguir uma tendência de contra-posição ao velho, e querer mudar não significa odiar o que estava até então, mas reconhecer como bom apenas na sua devida época. Veja como as uniões de pensamento dão certo: emocore é uma explosão, os caras me criam toda uma cena por volta da necessidade do público jovem de falar de amor (por que Raimundos e Mamonas não eram tão românticos assim né?!) e bem ou mal, deram certo, pelo menos ganharam dinheiro. Mesma história desses muleques do Happy Rock, dos punks nos anos 70, e até da atual cena pop sueca - se você quiser ir muito longe.
O que falta hoje é organização, um pouco mais de profissionalismo, ideologia (por mais podre que ela seja) e um pouco de conhecimento histórico também não faria mal. Se o que acontece de novo fica restrito ao público independente/alternativo, algo está de errado. Termino o post de hoje com um pensamento de Chico Science:
"É nos organizando que vamos desorganizar"
Abraços!
PS: como citei bandas suecas, fica aqui duas sugestões ótimas: Jens Lekman e Suburban Kids with Biblical Names
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