domingo, 12 de setembro de 2010

Definindo gênero

Muito daquilo que escrevo por aqui é resultado de reflexões feitas após algumas conversas no meu cotidiano. Uma das mais corriqueiras é a classificação de gêneros, ação essa quase que instintiva de um ser humano racional a procura de uma organização. Na música, esse tipo de tentativa pode ser frustrante.

Tudo começa com casos aparentemente óbvios, artistas que caracterizam um gênero. Por exemplo The Beatles ser reconhecido como rock'n'roll ou Miles Davis ser jazzista. Digo aparentemente pois quando se conhece a fundo tais exemplos, observa-se outras perspectivas na carreira como um todo.

Levando inclusive em consideração a mutabilidade dos artistas, fica um tanto quanto impossível catalogar assim. Para alguns, rock'n'roll é utilizado para designar a primeira geração rockeira, de volta aos anos 50. Hoje se tornou simplesmente a denominação genérica para qualquer rock mais tradicional. Utilizando a primeira definição, vemos o primeiro tropeço: os últimos álbuns do Fab Four talvez não os enquadrassem como o que lhes foram atribuídos na época do Please Please Me. Veja a fragilidade da rotulação. Na verdade, tento analisar muito mais um conjunto de obras do que um artista em si.

Dando embase para essa teoria, temos Miles Davis. Um dos precursores do cool jazz, após o contato com a guitarra e o estilo de Jimi Hendrix e mais tarde da música eletrônica - principalmente o hip-hop - ele traz tais texturas para seus trabalhos. Se você escutar somente a última gravação dele (Doo-Bop), não o classificaria como jazzista de jeito maneira!

Já ouvi algumas dezenas de vezes que punk é música de protesto. No Brasil, ouvi de pessoas reconhecidas como Clemente, líder do Inocentes, que aquela juventude candanga eram filhinho-de-papai demais para fazer punk rock, e que por ele e a trupe dele ser do súburbio paulista tinham, de fato, inventado o estilo no Brasil. Quer dizer que Ramones por ter um repertório de 98% das músicas falando de amor não são punk? Ainda acreditar que Sex Pistols eram realmente anarquistas é ser muito ingênuo. Isso só mostra como as pessoas dentro dos próprios "gêneros" batem cabeça na hora de tentar definir algo.

Se com artistas expoentes de seus "gêneros" já fica complicadíssimo achar uma descrição fiel, imagina falar de um Iron Maiden que não é tão pesado o bastante para ser Heavy Metal e nem tão leve para entrar num grupo Hard Rock. Led Zeppelin tinha um intuito de fazer blues e não passaram de influenciados, salve músicas isoladas - são reconhecidos muito mais pelo rock do que a pegada bluezeira.

Isso tudo me traz outra dúvida que me deixa intrigado: o que caracteriza música? Digo, "Quem se atreve a me dizer, de que é feito samba, quem se atreve a me dizer?" Será que só a combinação de harmonia, melodia e instrumentação são suficientes para generalizar? Essas perguntas vêm a tona quando grupos como o Stomp e o Bob McFerrin me são apresentados. Não temos uma linha melódica definida, mas sabemos que existe uma lógica nos temas, reconhecemos faixas distintas e sincronia entre os integrantes; no caso do McFerrin, ele é um instrumento que canta e produz sons inacreditáveis, pitadas de jazz e música clássica são perceptíveis, apesar de pouco poder enquadrá-lo em algum desses.

Sem mais delongas, não podemos, ao escutar algo, tentar achar um estilo para aquilo (em especial coisas novas). Isso pode ser até uma barreira - imposta às vezes de forma sutil - do seu meio social. Se nos preocupássemos mais com a qualidade e com os sentimentos que nos trás cada nova experiência musical, os preconceitos não apareceriam tanto quando o assunto é cultura. Ainda mais com o advento desse mundo globalizado e cada vez mais híbrido, as tendências são cada vez mais diversas.

Abraços!

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